Wagner da Silva: “A situação do Inter é culpa de Deus ou do Diabo?”

Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Fernando Carvalho, conhecido pelos colorados mais próximos da política do clube como “Deus” ou “Posto Ipiranga” – alusão ao famoso comercial onde as pessoas recebem indicação para sanar suas dúvidas no ponto comercial da referida marca –, é uma espécie de Buda colorado.

Dirigente com uma longa lista de serviços prestados ao clube, desde categorias de base até título Mundial FIFA, Fernando goza de muito prestígio, não somente com a torcida do Inter, mas também no mundo do capital privado.

Dirigente vitorioso, brilhante advogado e consultor de sucesso, Fernando fez por merecer cada elogio ou adjetivo recebido. Porém, Fernando hoje é refém do próprio sucesso, e por consequência, o Sport Club Internacional também o é. Uma rede de relacionamentos que vai desde o roupeiro do clube até os fundos mais abastados de investimentos, passando por figuras conhecidas da política do Inter e agentes de atletas, um conglomerado de entes que formam o sistema atual do futebol brasileiro. Estes o cercam para tentar se valer do sucesso de Fernando e de seu conhecimento do mundo da bola.

A pressão das amizades, talvez também dos laços comerciais e até mesmo um entendimento de que pode fazer mais pelo Inter, tem feito que nosso “Deus” colorado “abençoe” sistematicamente os presidentes eleitos há mais de uma década. Não somente presidentes, maioria no Conselho Deliberativo também. O MIG – Movimento Inter Grande, do qual nossa Entidade faz parte – ora tem a cadeira presidencial, ora uma vice-presidência, porém sempre com maioria no CD. Isso há mais de uma década. Ou seja, as coisas andam exatamente como Deus quer. E isso deveria ser benéfico ao clube, afinal de contas Deus é colorado. O que acontece na prática é que o clube não avança.

O CD, através da reforma do estatuto, priva o associado de indicar um candidato próprio.

O CD, através da reforma do estatuto, vendeu para o associado que o Conselho de Gestão é um avanço, quando na prática é mais um mecanismo para ser usado como barganha política.

O Presidente do CD alega “estratégia” – para descumprir o regimento interno da casa que ordena transmitir as reuniões do Conselho para o associado ao vivo pela internet.

O CD, ao longo dos anos, tem aprovado todo o tipo de absurdo financeiro cometido por quem geriu o clube.

O CD, na sua esmagadora maioria, calou quando o presidente se negou a registrar em cartório o novo estatuto que foi aprovado – enfiado goela abaixo do associado – tendo que um deles recorrer à justiça para que essa sim ordenasse o registro.

O CD viu o presidente assinar com duas emissoras de TV, antecipar e usar os recursos de ambos os contratos, sem exigir um estudo ou análise de mercado, o presidente vendeu até mídias que sequer foram inventadas pelo mercado tecnológico.

O CD decidiu que “luvas” é antecipação de receitas, porém não para essa gestão, para as futuras. Ou seja, o CD concluiu que o estatuto aprovado por nós, sócios, foi descumprido, mas a maioria dos conselheiros achou por bem deixar por isso mesmo e decidir por contra própria que apenas nas próximas gestões seria prudente não antecipar receitas.

O CD assistiu calado e sentado em confortáveis poltronas, todas as barbaridades cometidas pela atual gestão, aprovou cada movimento presidencial, nada foi contestado.

Repetindo, é natural que todos queiram adular Deus, todos querem sentar à sua direita, ou mesmo ficar perto da sua mesa e recolher as migalhas que eventualmente caem no chão. Vejam o “PACTO”, por exemplo. Tão logo Fernando Carvalho saiu de trás das cortinas, assumindo um cargo oficial no clube, um movimento se apressou em dar as boas vindas e secretariar a SWAT de Carvalho, Ibsen, Chumbinho e Roth. Convocou todos os demais movimentos do clube, com exceção de um, para carregar o andor da Nossa Santidade. O “PACTO” era um plano perfeito, no mesmo tempo que os movimentos ganhariam pontos com Deus, também fariam um bom cartaz com o associado. Posando de benfeitores ao lado de quem nos salvaria da degola e não sendo taxados de “rancorosos políticos”, “odiadores” e toda a sorte de adjetivos nefastos que recebe quem ousa criticar o que está nitidamente errado.

O torcedor colorado precisa acordar do transe que vive desde os anos de glória. Precisamos de um Conselho Deliberativo fiscalizador, não de uma casa submissa, para a proteção do clube e do próprio mandatário. O presidente e sua gestão sofrem enorme pressão para ceder a interesses. O poder em qualquer esfera tem esse ônus, porém, com uma oposição atuante no CD, o mandatário pode se valer dela para ter força em rechaçar qualquer pressão que possa prejudicar o interesse do clube. Pode usar a “desculpa” de que “o CD não irá permitir tal prática”, que “o clube tem um estatuto e esse não pode ser ferido”. Acho que é um bom caminho.

Quanto a Deus, precisamos lhe render toda a sorte de reverências, de agradecimentos e elogios, por tudo que conquistou no passado. Hoje ele tem feito às vezes de “Diabo”, não só indiretamente, intoxicando a política colorada com seu “feromônio” do sucesso, mas também diretamente nesses últimos meses, sendo o comandante que nos conduziu às portas do inferno.

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