Rafael Serra: “113 anos e alguns dias”

FOTO: PEDRO ESPINOSA / MUNDO GRE-NAL

FOTO: PEDRO ESPINOSA / MUNDO GRE-NAL

O ano da comemoração dos 113 anos tinha tudo para ser o ano campeão. Gauchão, Primeira Liga, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil. A base do time e a capacidade tática estabelecidos na última temporada colocavam um otimismo, beirando a confiança, no horizonte. Alguma das competições seria nossa.

Acontece que nos últimos anos o Grêmio vem sendo planejado de acordo com pensamento de grupos e movimentos políticos. Não se faz planejamento do clube pensando no bem estar do clube.

Em 2008, com um time limitadíssimo e um técnico contestado, viramos o turno do Brasileirão 11 pontos na frente do São Paulo, que em dezembro gritou ‘É Campeão’. Alguns profissionais daquele grupo até hoje dizem que a disputa presidencial entre Paulo Odone, então presidente, e Duda Kroeff, candidato, foi um fator muito forte para a perda do foco e, consequentemente, do tricampeonato. Há quem defenda que a disputa política não entra no vestiário.

No segundo semestre de 2012 houve mais uma disputa política: Paulo Odone x Fábio Koff. Odone sabia que enfrentar Koff, o maior presidente da história do clube, numa corrida presidencial seria complicadíssimo. Seu trunfo? Um magnânimo estádio. Paulo Odone, juntamente com seus pares, idealizaram a nova casa gremista. Ajustaram um contrato, com aprovação do conselho deliberativo, e ajustaram aditivos do mesmo que praticamente inviabiliza financeiramente a instituição em duas décadas. Além disso, contratou Kléber Gladiador com um contrato de cinco anos ganhando mais de meio milhão de reais por mês. Em dezembro de 2012, após perder o pleito, Odone inaugurou a Arena sem que a mesma tivesse condições para tal. Seu nome estará na eternidade como o dirigente que inaugurou o estádio.

O ano de 2013 parecia promissor. Fábio Koff estava de volta, mesmo que não tenha apresentado nada de novo e surpreendente, é o presidente mais vencedor da história. Só por isso merece crédito. Contra sua vontade, Koff manteve Vanderlei Luxemburgo, após pressão da opinião pública e apelo da torcida. Luxemburgo montara um time caro, com jogadores em final de carreira e baixo aproveitamento técnico. Tudo isso com o aval do presidente Koff. O resultado foi mais uma Libertadores jogada fora, uma folha salarial inchada e ruim.

Chegamos ao ano de 2014. Com uma péssima gestão no futebol, o então presidente Fábio Koff resolve abrir mão da reeleição. Seu estado de saúde também foi levado em conta para esta decisão. Romildo Bolzan Jr., membro do conselho de administração, é candidato à presidência apoiado por Koff. Do outro lado da disputa estava Homero Bellini Junior. Tudo se desenhava para que a oposição (Homero) vencesse a eleição. Então, faltando alguns dias para o pleito, Fábio Koff convoca uma coletiva de imprensa e anuncia a compra da Arena, ao lado do seu candidato Romildo. A “compra” da Arena segue sendo tratada. A demora na negociação, segundo as fontes oficiais, se deve a todo envolvimento da construtora OAS na operação Lava-jato.

Romildo vence a eleição e, com os cofres cheios de dívida e pouquíssimo poder de endividamento, estabelece a política de austeridade, onde o objetivo é apostar em jovens promessas oriundos da base do clube e de outros times e fazer contratações pontuais e baratas. A primeira decisão forte de Romildo como mandatário é demitir Luis Felipe Scolari, que fazia um péssimo trabalho e fora contrato por Koff naquela atitude do pensamento mágico: apostar em ídolos e êxitos do passado para corrigir erros do presente.

A chegada de Roger Machado vem por convicção e concepção de um modelo/perfil estabelecidos pelo conselho de administração. Um treinador emergente com ideias atualizadas de futebol. Roger chega e parece reinventar o modo do Grêmio jogar. O time joga bonito e convence. Mas será que os dirigentes estavam convencidos?!

Tinha tudo para uma continuidade do trabalho de Roger Machado é suas comissão técnica. Após o fracasso da Libertadores é preciso mudar o departamento de futebol. Saem o executivo Rui costa e o ultrapassado César Pacheco. Um dos problemas de gestão do clube nos últimos anos é não formar dirigentes. Os últimos, Marcos Chitolina e Omar Selaimen, saíram por não aceitarem o modo de gestão que afetava o clube naquele momento. Chegou a vez de Antônio Dutra Júnior e o retorno de Alberto Guerra.

Dutra foi alçado à dirigente numa composição de chapa na eleição de 2014. Foi desligado do antigo movimento por não agir conforme a diretriz da maioria. Aceitou o desligamento e se tornou vice-presidente. Antes de assumir, Dutra era ombudsman nas redes sociais. Atacava jornalistas e empresas de comunicação numa atitude comum nestes 15 anos de história no clube: colocar a culpa dos problemas e derrotas em terceiros. A culpa nunca é de quem está dirigindo, sempre é dos outros. Alberto Guerra, com bom trabalho no futebol em 2010, talvez não tenha tido tempo para absorver toda essa carga de responsabilidade e costura política.

A semana passou e os 113 anos foram comemorados sem técnico e com o departamento de futebol vazio. Roger pediu demissão por não conseguir fazer o time continuar jogando aquele bom futebol de 2015 e alguns jogos de 2016. A solução?! Em véspera de eleição serão anunciados ídolos. Renato Portaluppi, nosso homem gol, e Valdir Espinosa, maior técnico da história tricolor. É um pensamento mágico. Trazer personagens importantes para corrigir erros dos dirigentes.  Não será uma continuidade de trabalho, uma convicção, pois a inexistência de um plano de gestão do clube alimenta a disputa eleitoral. Se coloca um técnico “tampão”, um ídolo que não traz rejeição, para depois do pleito se determinar o “planejamento” de acordo com o movimento político vencedor.

Agora só resta acreditar nos ídolos e que a eleição não seja tão danosa ao clube, afinal nos últimos anos ela tem definido, para ruim, as estratégias e planejamentos da instituição, cujo o objetivo é ser campeão de futebol.

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