Paulo Pelaipe: “Futebol tem que ter convicção e não mudar toda hora de treinador”

Foto: divulgação Criciúma

Foto: divulgação Criciúma

O Mundo Gre-Nal falou com Paulo Pelaipe na última terça-feira por telefone sobre seu atual momento na sua carreira como diretor-executivo do Criciúma, bem como fez um apanhado durante a entrevista de algumas passagens suas no futebol brasileiro atuando como dirigente do Grêmio, do Fortaleza e antes do clube catarinense atualmente, sua passagem marcante pelo Flamengo. Pelaipe é um homem de histórias, mas principalmente de vestiário. É conhecido pelo seu modo de trabalhar focado na disciplina e não se anula em momentos de crise. Confira na sequência o que Pelaipe falou para o Mundo Gre-Nal no que se refere ao momento atual do futebol nacional, sobre gestão, suas ambições e sobre seu trabalho no Criciúma.

Mundo Gre-Nal – Pelaipe: Essa situação do futebol atual sobre gestão, investimentos e contratações: Você fez parte de um Flamengo nesses novos moldes de gestão mais austera e inovadora. Como foi sua passagem pelo Flamengo tendo que fazer uma gestão mais enxuta?

Paulo Pelaipe – Foi uma passagem boa de muito aprendizado com a gestão do Presidente Eduardo Bandeira de Mello onde fui diretor-executivo do Flamengo. Foi um momento difícil, de cortar na carne, de dispensar jogadores importantes, mudar a comissão técnica em função de valores que estavam fora da realidade do futebol brasileiro. E claro, trabalhamos dentro de um orçamento ali de janeiro de 2013. Quando nós iniciamos no dia 2 de janeiro daquele ano, começamos a planejar e fazer orçamentos. O departamento de futebol num primeiro momento foi sacrificado, a primeira preocupação na época pela diretoria era pagar os impostos, botar o clube em dia, se acertar com os credores. Tivemos os seis primeiros meses muito difíceis. Mas tivemos a felicidade de contratar alguns jogadores tido como apostas, atletas jovens como o Samir, o Paulinho. Demos condição para alguns jogadores da base no grupo principal como Luís Antônio, o Rafinha dentre outros meninos. Compramos jogadores baratos com salários baratos que deram respostas fantásticas, como o Hernane “Brocador” que veio do Mogi Mirim e marcou 38 gols na temporada de 2013 e foi goleador da Copa do Brasil. Saímos fortalecidos em 2013 com a conquista da Copa do Brasil com essa política de futebol. Aí depois em 2014, o Flamengo ganhou a Taça Guanabara e o campeonato estadual, mas sempre gastando dentro da sua realidade, pagando dívidas e fazendo uma equipe dentro daquilo que podia honrar. A diretoria do Flamengo na época era muito séria e mantinha tudo em dia: Salários de atletas, profissionais do clube… tudo em dia. E hoje, após quatro anos, colhe frutos e pode investir. Hoje em dia tem lá um diretor-executivo que é uma pessoa competente, que é o Rodrigo Caetano e vem fazendo um trabalho que pode ter certeza que um clube com a maior torcida do Brasil, logo logo vai potencializar ainda mais, porque se continuar com essa política de futebol, de austeridade, de só gastar aquilo que arrecada, nós teremos aí um clube invejado pelos próximos anos.

Foto: divulgação Flamengo

Foto: divulgação Flamengo

Mundo Gre-Nal: E sua passagem pelo Fortaleza, como é a realidade do futebol cearense? O que você pode nos contar desta experiência de lá?

Paulo Pelaipe – Lá é muito diferente e foi uma experiência diferente. Lá quando eu estive em 2009, deu pra perceber que tem muito chão pela frente pra evoluir e se aproximar dos clubes do sul. É uma política de futebol de resultados imediatos, não tem uma previsão financeira, vai ainda muito do improviso e o pessoal vive de resultado. Não acontece o resultado? Muda o treinador duas ou três vezes por ano. Isso só mostra que o clube precisa se profissionalizar ainda mais. Mas já avançou muito, afinal, estamos falando de 2008/ 2009… Tivemos a felicidade de conquistar um inédito tricampeonato estadual, mas ainda tem muito chão pela frente… Agora, estão tentando encaminhar uma ida para série B, disputando vaga com o Juventude… Então, eu acredito que os clubes da região sul… sudeste… estão um pouco na frente ainda. Mas já têm clubes de lá que estão se reorganizando. A gente vê o Sport que tem uma estrutura. Há vinte dias atrás estive em Recife vendo a estrutura do Sport com centro de treinamento… Realmente é um clube que está se profissionalizando muito, se preparando muito. O próprio treinador, o Oswaldo de Oliveira, a manutenção dele nesta campanha com uma diretoria trabalhando com convicção e com uma política de futebol com foco. Então, pode ter certeza que logo logo vai dar certo. Futebol tem que ter convicção, acreditar num trabalho, não mudar toda hora de treinador… Não acredito que clube que mude toda hora de treinador dê certo… Isso é muito ruim… Isso mostra uma instabilidade de clubes e dirigentes que trabalham nos clubes.

Mundo Gre-Nal: E nesse fator convicção, o que motivou você a aceitar essa condição de diretor-executivo do Criciúma e trabalhar no clube catarinense?

Paulo Pelaipe – É um clube que tem uma estrutura muito boa com um plano administrativo de futebol até 2022. Eu tive umas três… quatro vezes lá conhecendo. Hoje o Criciúma tem um centro de treinamento, com seis campos de futebol, tem hotelaria onde os atletas profissionais concentram, têm alojamentos para até 86 meninos das categorias de base, refeitório, toda uma estrutura de retaguarda, sala de musculação de primeira linha, piscinas térmicas e de gelo, profissionais bons… Então, tem uma condição ótima. Um estádio pra receber seus jogos também, bem arrumado, tudo muito organizado. Um clube que não tem nenhum tipo de dívida com o governo, não deve nada aos jogadores… Paga em dia… É realmente um clube que tem condições de ter um crescimento. Tem um trabalho forte na base, que rendeu esse ano alguns frutos: Para te dar uma ideia, vendeu Ezequiel (lateral-direito) para o Cruzeiro, o Roger Guedes para o Palmeiras, o Gustavo para o Corinthians, o Bruno Lopes pro Arouca (Portugal), o Lucca também pro Corinthians… Então… é um clube que trabalha muito a base. Por exemplo: O time principal tem 10 jogadores que são oriundos da base… E o presidente me passou uma ótima impressão do clube… E agora eu com 45 dias de clube posso ver isso. Quando vim pro Criciúma, eu vim com contrato de 90 dias pra ajudar… o clube vinha num momento difícil com algumas derrotas, a quatro pontos da zona debaixo da tabela, mas graças a Deus com os 45 dias conseguimos reverter o quadro. Estamos perto de disputar uma realidade de acesso para série A, eu agora por exemplo, estou em Juiz de Fora (MG) quando o Criciúma hoje enfrenta o Tupi (Obs: *o Criciúma venceu pelo placar de 2×0 o clube mineiro na última terça-feira), e faltam 10 rodadas. O Criciúma é um dos postulantes a uma vaga de série A. Então… o que me motivou e me trouxe para aceitar esse desafio no Criciúma, foi a estrutura do clube, o clube não ter muitos dirigentes, muitos cartolas… e a gente poder desenvolver um trabalho que é diretamente com o presidente.

Mundo Gre-Nal: Tem a sua questão que envolveu o Grêmio (Paulo Pelaipe já passou quatro vezes pelo departamento de futebol do Grêmio. A primeira ocorreu entre os anos 1997 e 1998, quando atuou como diretor da categoria júnior. No início dos anos 2000, foi assessor de futebol de José Alberto Guerreiro. Também estava no clube 2005, quando abraçou a missão de reconduzir o time tricolor à elite do futebol nacional. A última passagem foi entre 2011 e 2012.)
Logo a pergunta é a seguinte: Qual é a sua opinião dessa temática de ídolos no comando técnico de plantel? Me refiro ao Portaluppi que está na sua terceira passagem pelo Grêmio, bem como o Falcão recentemente também fez o mesmo caminho. O que você pensa sobre isso?

Paulo Pelaipe – Estando longe é difícil de dar alguma opinião sobre isso. A única coisa que eu posso dizer é que houve uma mudança no Grêmio. Uma mudança de filosofia de trabalho, afinal, o Roger ficaria até 2017. Aliás, o Roger vinha fazendo um bom trabalho, mas nos primeiros resultados negativos, toda uma filosofia foi pro saco! Aí mudou! Então… foi uma mudança completamente diferente do discurso. O Roger era exaltado, era enaltecido e qualquer resultado que acontecesse ele iria continuar… e evidente que o Roger não continuou e foi buscado uma solução que o Grêmio acha que pode dar certo.

Mundo Gre-Nal: Você tem uma opinião com relação ao vestiário de clube, certo? No seu modo de trabalhar nele, na sua opinião, você acha que faltam mais “Paulos Pelaipes” dentro dos vestiários dos clubes no Brasil? Por conhecimento da reportagem daqui de Porto Alegre e sabendo o seu estilo de trabalho, por isso pergunto isso.

Paulo Pelaipe – Não… cada um tem seu estilo. E eu tenho meu estilo! Não abro mão disso! Não abro mão da disciplina, do comando, essa é minha forma de trabalhar. Eu acho que é uma forma correta dentro daquilo que eu penso. Tenho conquistas dentro disso. E não só isso, além das conquistas eu tenho admiração dos profissionais que trabalharam comigo. Eu cobro muito os jogadores, mas com muito respeito. Jamais fiz uma crítica a qualquer jogador fora do vestiário. Como eu digo: As conquistas e títulos a gente recorda e guarda, afinal, não é a gente que ganha. O dirigente faz parte de um trabalho vitorioso. Quando você ganha uma Copa do Brasil, quando você ganha um Brasileiro, um estadual, o dirigente faz parte desse trabalho, porque realmente quem ganha são os jogadores dentro do campo, é a comissão técnica no dia à dia e o dirigente, ele ajuda, dando tranquilidade, dando condições de trabalho para que os profissionais possam exercer tudo na plenitude. Eu sempre tenho comigo a frase do Sr. Rudi Armin Petry: “O bom dirigente é aquele que não atrapalha”. Ele não atrapalhando, ele já fazendo um grande trabalho. Então, um dirigente tem que dar condições para que os profissionais trabalhem. Mas…

“Eu vejo assim como meu maior troféu, que foi no Maracanã, o templo sagrado do futebol, quando o Flamengo foi campeão da Copa do Brasil… Os jogadores: Leo Moura, Elias, Chicão… todo grupo de jogadores foram ao vestiário, quando os roupeiros, os massagistas estavam ali após a conquista, os jogadores me pegaram lá e me levaram pro meio do campo e me atiraram pra cima… Isso daí foi o maior… Talvez seja o maior troféu da minha vida foi a gratidão pelos jogadores. Eles viram o que passamos em 2013, a gente fez um trabalho importante de recuperação do clube, e aquela gratidão, aquele carinho dos atletas, pra mim, aquilo ali me marcou muito! Isso aí eu vou levar pro resto da vida e não vou esquecer jamais.”

Mundo Gre-Nal: O que Pelaipe pensa para 2017? Em virtude daquilo que você disse com relação aos 90 dias de contrato com o Criciúma?

Paulo Pelaipe – Atualmente eu só penso em fazer o melhor no Criciúma e ver até onde a gente pode levar o clube. Honrar esse compromisso que eu assumi… Depois eu vou ver… Eu já tinha recebido alguns convites, mas não tinha aceitado. Resolvi conhecer o Criciúma e trabalhar. Não dá pra gente sem meter em aventuras. Eu tenho bastante experiência, eu não faço aventuras. Então, conheci o clube, um clube que honra seus compromissos, que tem condições de crescer. Eu estou muito satisfeito, dá pra fazer um trabalho com tranquilidade… A cidade é boa de morar, estou perto de Porto Alegre, estou perto da minha família também… cerca de 3 hora de carro ali… tranquilo… Então, estou satisfeito aqui, mas quando chegar o mês de novembro a gente pensa com calma junto com meus filhos e com minha esposa, eu sempre converso bastante com eles pra ver o que eu fazer pra 2017.

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