Wagner da Silva: “Dirigentes, planejamento não se tem apenas quando se ganha”

Foto: Alexandre Lops/Internacional

Foto: Alexandre Lops/Internacional

A dupla Gre-Nal está perdida, sem rumo, totalmente desnorteada. Na noite desta quarta (14), Roger Machado, o jovem e promissor técnico do Grêmio, deixou o comando da equipe tricolor. A sequência ruim de resultados e principalmente a falta de perspectiva de título brasileiro são apontadas como as principais causas do desligamento do treinador.

Roger chegou no clube após o pedido de demissão de Luiz Felipe Scolari e logo deu um padrão novo de jogo à equipe. Técnico com conceitos modernos, de linguagem e principalmente de treinamentos até então inovadores no Humaitá, Roger logo caiu nas graças da torcida e imprensa gaúcha. Com algumas oscilações de atuação e de resultados, o técnico conseguiu classificar para a Libertadores uma equipe que encontrou no Z-4 da tabela. Um feito e tanto para um “novato”. Porém, após alguns insucessos como a desclassificação no Gauchão – ainda na semifinal – e a queda nas oitavas da Libertadores, o presidente Romildo Bolzan resolver fazer uma troca no comando do Departamento de Futebol. Saíram o executivo Rui Costa e o Vice Cesar Pacheco e quem assumiu foi o atual vice, Alberto Guerra.

Nesse ponto as coisas começaram a mudar um pouco de rumo. Alberto Guerra é afeito a outro estilo de futebol que não o de Roger. Guerra é fã do trabalho de Renato Portaluppi, por exemplo, um estilo totalmente diferente de Roger Machado. Portaluppi, longe de ser um “estudioso” do futebol, tem mais a “cara de Grêmio”, é um treinador – como o era quando jogador – “sanguíneo”. Não poderia mesmo dar certo a parceria. A cabeça – Alberto Guerra – pensa de um jeito e o corpo – Roger Machado – age de outro.

Aconteceu isso no Internacional. Diego Aguirre foi contratado pelo vice Luis Fernando Costa. Após o falecimento do mesmo, Pellegrini “assumiu” a pasta mesmo sendo diretor de futebol e não vice. Ali foi dado início a um verdadeiro “bombardeio” de críticas – abertas e em off – ao trabalho do treinador uruguaio. Sem respaldo do departamento, não há trabalho que resista. Ainda assim Diego Aguirre conseguiu levar o time à semifinal da Libertadores 2015. Com a derrota para o Tigres, o diretor “encontrou motivos para fazer o que queria há muito” – conforme o próprio deixou claro em entrevista – que era demitir o treinador.

O futebol em Porto Alegre é planejado conforme o lado que sopra o vento. Conforme a massa de ar que se aproxima da Capital, ora quente, ora fria. A gente não tem ideia do que se passa na cabeça dos nossos dirigentes. Não há convicção, às vezes parece que há, mas ela muda conforme o alinhamento dos planetas.

Roger fez um excelente trabalho no Grêmio, isso é consenso nacional. Não vieram títulos, isso é uma verdade também. Mas ninguém garante que com continuidade eles não viriam. Sem continuidade temos a certeza que não. Tite no Corinthians é um belo exemplo de que um bom trabalho, quando respaldado, pode dar bons frutos. Isso cabe muito ao Inter também.

Imaginem Diego Aguirre completando dois anos de trabalho a pleno, com apoio e respaldo de uma diretoria competente e que tivesse um mínimo de convicção nos conceitos modernos do futebol. Título ninguém garante, nem mesmo Mourinho ou Pep Guardiola, mas o trabalho deles aparece nas equipes que eles treinam, pois lhes oferecem estrutura e principalmente respaldo.

Que nossos dirigentes parem de brincar de FIFA Manager, que tenham um pouco mais de coerência. Que não pensem nos seus projetos pessoais – que são imediatistas, querendo resultados “instantâneos” para fazer nome – e sim se preparem para executar um projeto de longo prazo, que ultrapassem suas gestões egocêntricas, definindo um conceito e trabalhando para que ele se perpetue mesmo eles não mais figurando nos quadros diretivos.

As nossas torcidas já provaram muitas vezes que merecem um trabalho mais sério, mais condizente com a grandeza do nosso futebol. Planejamento não é só quando ganha.

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