Déborah Medeiros: “Desculpe o transtorno, preciso falar sobre William e Edílson”

Foto: Lucas Uebel/FGrêmio FBPA

Foto: Lucas Uebel/FGrêmio FBPA

Gre-Nal é um evento atípico. Talvez evento não seja bem o nome certo a ser dar ao Gre-Nal. Gre-Nal é maior que isso. É um misto de emoções intensas, uma rivalidade exacerbada ao nível máximo, uma roleta russa de sentimentos.
Pois bem, o clássico Gre-Nal, em toda sua magnitude, considerado por muitos o maior clássico do Brasil, é recheado de heróis e vilões ao longo da sua história.

Heróis de um jogo, vilões por um lance. Mas alguns jogadores souberam abraçar para si a causa do Gre-Nal e se utilizar da rivalidade dentro e fora de campo, usando isso a favor do seu time em clássicos. Do lado azul, Danrlei de Deus, heroico, fechava o gol e ainda provocava a rival. Já do lado vermelho, D’Alessandro protagonizou Gre-Nais memoráveis – ditava o jogo, chegava no juiz e ainda abraçava a torcida na corneta. Esses homens Gre-Nais sabiam fazer exatamente o que a torcida queria: ser torcedor, chamar a responsabilidade mas, acima de tudo, vencer o adversário na bola.

A expectativa para esses homens Gre-Nais, heróis de uns e algoz de outros, sempre foi um fator mágico do espetáculo Gre-Nal. Parece ridículo num jogo de futebol essa necessidade de protagonismo, especialmente quando exigimos do futebol que ele seja coletivo e não 90 minutos abrilhantados por algum talento individual.

Confesso que as últimas manhãs de Gre-Nal, pra mim, começaram vestindo minha a camisa 10 e partindo rumo ao Beira-Rio, só pra esperar o D’Alessandro acabar com o jogo. Esperança demais? Talvez, mas a verdade é que como em toda história, precisamos nos identificar com alguém.

Nos últimos Gre-Nais, precisamente desde que o D’Alessandro saiu do Inter, os protagonistas foram outros: violência em campo, lances duvidosos, times nervosos, treinador agrônomo que não sabe dirigir um trator, cornetas… E o futebol… nada.

O Gre-Nal deste domingo foi marcado por um episódio lamentável de violência entre Edílson e Dourado, em meio a dois times de ânimos exaltados que renderam mais chutes e socos a outros jogadores, que gerou a discussão mais lamentável ainda sobre a semelhança entre o caso William e Bolaños.

Para recapitular ao extraterrestre que caiu de paraquedas aqui, no Gre-Nal 409, William divide uma bola com Bolaños e dá uma cotovelada no maxilar do equatoriano. Lance de jogo, sem cartão, jogo que segue. No intervalo, Bolaños não volta pro campo e se descobre que o choque rendeu uma lesão grave no maxilar do jogador. William foi extremamente irresponsável, porém não intencional.

Algo muito semelhante ao que se acredita ser a Terceira Guerra Mundial (viu como o Gre-Nal é grande?) tomou conta das redes sociais em que alguns tratavam o William como vilão do jogo, que foi violento, maldoso e intencional quando disputou a bola com Bolaños. Outros defendiam o lateral por ver ali um lance de jogo.

Na Arena, numa confusão gerada numa briga por uma bola entre Kannemann e Vitinho, Dourado entrou de gaiato no navio para separar a desordem e Edílson chegou dando socos. Três, para ser precisa. E numa pressão dos jogadores gremistas, Edílson e Dourado foram expulsos. Um por bater, outro por apanhar. Novamente, os resquícios da chama da Terceira Guerra Mundial gerada no Gre-Nal 409 se acenderam e muitos defenderam Edílson como herói, espírito aguerrido de Gre-Nal, outros como o vilão violento da rodada.

Em resumo, qualquer uma das situações é lamentável, já que violência nunca é um bom negócio ou exemplo, principalmente dentro de campo. Mas me preocupa que essa roleta russa de sentimentos do Gre-Nal nos deixe tão cegos a ponto de levar tudo a ferro e fogo, 8 ou 80, herói, vilão… não podemos, simplesmente, discutir numa boa!

Numa análise de Direito, é muito simples ver a diferença desses dois lances: William, quando dividiu a bola com Bolaños com o braço levantado, assumiu um risco de machucar, apesar de, analisando o lance de todas as câmeras possíveis, não foi intencional. Culpa. Jogo parado, um embolo e jogadores para separar uma briga e o Edílson chega disparando socos a quem não participa da confusão, violência gratuita intencional. Dolo.

Ninguém é obrigado a defender alguém que faz algo errado só porque esse alguém é do seu time. Nem é bonito estimular a violência só pelo espírito aguerrido do clássico. Ser herói por bater talvez funcione bem no MMA. Por aqui quem perde somos nós, torcedores, e acima de tudo o futebol.

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