Daniel Matador: “O Último Camisa 10”

Foto: Lucas Uebel, Grêmio FBPA

Foto: Lucas Uebel, Grêmio FBPA

“I must face all my enemies

Protect and defend what is mine

I will fight until victory

For I am the one

The last of a dying breed

 

Tenho que encarar todos os meus inimigos

Proteger e defender o que é meu

Eu vou lutar até a vitória

Porque eu sou o escolhido

O último de uma linhagem em extinção”

Refrão da canção “Last of a Dying Breed” (Último de uma Raça em Extinção), da banda norte-americana Impellitteri.

 

Caros

O Grêmio tem tradição de calar estádios adversários lotados em partidas vitais. Calou o Morumbi duas vezes: em 81, o golaço de Baltazar, o Artilheiro de Deus, emudeceu quase 100 mil vozes, sagrando o clube campeão brasileiro contra o São Paulo. E em 2001 viu mais de 80 mil corinthianos calarem-se neste mesmo estádio frente a um passeio de Marcelinho Paraíba, Zinho e os demais comandados de Tite no Tetra da Copa do Brasil. Em 1995 o mítico Atanasio Girardot vislumbrou o único time estrangeiro a erguer a Taça Libertadores na América naquele gramado, sob os olhos atônitos de mais de 60 mil colombianos. E em 1997 quase 100 mil almas rubro-negras calaram-se no Maracanã vendo o tricolor arrebanhar mais uma vez o troféu da Copa do Brasil.

E aqui estamos falando somente de finais, quando taças foram conquistadas nos domínios do adversário, que nada pôde fazer a não ser calar, aplaudir e aceitar. Sequer inclui-se aqui a goleada histórica que resultou na primeira vitória de um time estrangeiro sobre o Boca Juniors na Argentina em 1959, a qual transformou a Bombonera num túmulo. Além de tantas outras que, se arroladas em seus detalhes, dariam quase um livro.

Pois nesta quarta foi a vez de o Mineirão virar cemitério. Mais de 50 mil cruzeirenses entupiram o reformado estádio da última Copa do Mundo para ficarem boquiabertos com a performance proporcionada pelos comandados de Renato. Mesmo não estando na casamata, por conta da expulsão no jogo anterior contra o Palmeiras, ele montou o time à sua maneira. E Alexandre Mendes, seu auxiliar, soube comandar as ações e assegurar uma vitória soberba que deixa pavimentado o caminho para mais uma final de Copa do Brasil.

E esta vitória veio de uma maneira singular. Douglas havia sido poupado no Grenal, com a alegação de que vinha de desgaste e necessitava de recuperação. Por ser um dos mais velhos do grupo e ter jogado várias partidas durante a temporada, seu esgotamento era grande. E Renato necessitava dele inteiro para a partida decisiva das semifinais contra o Cruzeiro. O resultado pôde ser visto em dois momentos: no próprio Grenal, onde ele esteve ausente e o time gremista não conseguiu criar praticamente nada, conseguindo um insosso empate sem gols. E no Mineirão, quando comandou uma jornada praticamente perfeita que culminou em uma assombrosa vitória.

Edílson já havia cunhado uma frase interessante em uma entrevista coletiva há tempos atrás. Disse ele que Douglas era “o último camisa 10 do futebol brasileiro”. Alegou que ninguém, em todo o país, consegue fazer o que ele faz e da forma que faz. Risadas e muxoxos foram ouvidos. “Ah, ele é vagabundo!”, “ah, ele é bebum”, “ah, ele só se arrasta em campo”. Mas os fatos estão aí para serem jogados na cara de todos. O Grêmio sem Douglas é um time. Com Douglas, é outro completamente diferente (para melhor, naturalmente).

Na jogada que originou o gol antológico de Luan, o Grêmio ficou, sob o comando de Douglas, trocando passes durante mais de um minuto em frente à área do Cruzeiro. Um minuto inteiro sem nenhum jogador adversário sequer tocar na bola! Um verdadeiro baile! E as ações do “Maestro Pifador” não pararam aí. Ele cavava faltas, amarrava o jogo, ganhava tempo quando o relógio corria a nosso favor.

E, como se não pudesse ser ainda melhor, voltou fazendo a mesma coisa no segundo tempo. Até que recebeu um passe de Ramiro e mostrou o que um vagabundo que manja do riscado pode fazer. Correu junto com o zagueiro, sem tocar na bola, deixando para bater de chapa no momento certo e vencer o arqueiro, que nada pôde fazer a não ser buscar a bola no fundo da rede e juntar-se ao choro de sua torcida. E também ao choro dos detratores, pois aquela atuação e aquele gol tinham múltiplos significados. Era a consolidação da vitória tricolor. O tiro de misericórdia que calou o Mineirão. E a consagração do último camisa 10 do futebol brasileiro.

Saudações Imortais

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