Daniel Matador: “Noite de vento, noite dos mortos”

Foto: Lucas Uebel/GFPA

Foto: Lucas Uebel/GFPA

“Quando à noite ventava e eles estavam dentro de casa em silêncio, esperando a hora de irem para a cama, a moça de repente murmurava: “Noite de vento, noite dos mortos.””

Da obra imortal de Érico Veríssimo, O Tempo e o Vento.

Sempre venta muito no Dia de Finados. Dizem que venta por causa dos mortos. Alguns têm medo desse vento, pois creem tratar-se de um chamado do além para deixarem esta vida. Vou contar um segredo pra vocês: É VERDADE! O vento de finados serve para levar deste vale de lágrimas aqueles que não possuem a coragem necessária para enfrentá-lo.

Pois nesta noite ventou. Ventou muito. Ventou demais. Ventou como nunca. Foi um vento estranho, que ninguém sabia de onde vinha e por qual razão não parava. Ah, tolos! Esse vento só amaina depois que cumpre sua missão e leva embora os fracos e derrotados. Aí ele se acalma, como um prêmio para aqueles que sobreviveram à sua fúria.

No Dia dos Mortos teve jogo e vento na Arena. Ambos estavam ocorrendo pelas mesmas razões. Os dois maiores campeões da história da Copa do Brasil resolveram enfrentar-se para ver quem ganharia o direito de tentar ser o campeão absoluto. Parece que proibiram os tambores e os bumbos. Não se toca música no Dia dos Mortos. Só que o vento não parou um minuto sequer. E ditou o ritmo da partida.

Correndo ao sabor dos elementos, o tricolor fez valer sua força na Arena. E a malandragem de Renato foi vencedora. Jogou com o regulamento debaixo do braço. Fez o time do Cruzeiro correr atrás do prejuízo que tinha tomado em Minas Gerais. Deixou os jogadores da raposa sentirem o açoite do vento na cara, como que mostrando que dali só sairiam eliminados.

Fez o time do Grêmio jogar a favor do vento, do placar e do relógio. Matreiro, enervou o adversário, que não conseguia furar a defesa dos paredões Geromel e Kannemann. E, ao mesmo tempo, obrigava-os a abrir, por vezes, espaços para contra-ataques, os quais só não foram melhor aproveitados por capricho ou displicência.

No Dia dos Mortos, o Cruzeiro faleceu na Arena. E o Imortal ressuscitou. Quinze anos após ter disputado e vencido sua última final de Copa do Brasil, ele voltou ao panteão dos grandes. De onde jamais deveria ter ausentado-se por tanto tempo.

Avisem o Galo que um vento gelado vindo do sul passou por aqui em plena primavera, devastando tudo que tinha pela frente. E que só o Imortal sobreviveu ao Dia dos Mortos. Estamos na final da Copa do Brasil. O Penta nunca esteve tão perto. E, se ele chegar, o vento de finados será uma leve brisa comparado à tempestade que teremos na Província de São Pedro.

Saudações Imortais

Comentários

Comentários