Adriano Schneider: “O Inter dos apesares”

Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Há que confunda o plantel com a direção de um clube.
E por mais que os vícios possam interligar ambos, o grupo de jogadores só é esse porque a direção contratou. E convenhamos: foi um Inter de apesares durante duas temporadas. O plantel montado por uma, duas, ou até três gestões confunde a lógica e mexe com todo e qualquer torcedor racional.
Apesar de não ser a convicção da direção e depois de tantas negativas, Aguirre chegou ao clube. Foi tratado num primeiro momento com desconfiança por parte da torcida que acabou fechando com ele. Primeiro semestre de dúvidas, indagações mas ainda assim com um arremedo de time grande.
Apesar de Alan Costa, Géferson e um Aránguiz completamente desmotivado a competir por já estar vendido, chegamos aos semifinalistas da Libertadores.
Então veio o fato novo, as barbeiragens nas entrevistas, demissão, salários atrasados e o 5 x 0. Apesar disso, tínhamos sido campeões do Gauchão e isso nos dava o mínimo fôlego pra achar que o mínimo era suficiente.
Então veio Argel. Ele não pediu pra trabalhar no Beira-Rio. Foi chamado, contratado, tirado do seu emprego anterior com um salário muito maior. Qual de nós não aceitaria, por uma bolada, treinar seu time de infância? E novamente: apesar de não ser a contratação dos sonhos, a torcida se viu com a segunda melhor campanha do segundo turno. Viu um Inter combativo na Copa do Brasil e a vaga pra Libertadores escapar nos últimos três pontos.
Apesar, apesar, apesar. Ainda que sem Nilmar, sem Lisandro, sem Aránguiz, com D’Ale multiplamente lesionado, Nílton e Wellington suspensos por doping.
E veio 2017, muito embora com um time aos pedaços. Não trocamos o técnico pelo óbvio: quem aceitaria trabalhar no caos disfarçado de poréns?
Muitas contratações feitas sem o menor estudo técnico e acesso aos dados dos últimos cinco anos, investimentos descabidos. Renovações esdrúxulas até 2019 como o caso de Paulão. O time sobrevivia apesar dos pesares.
Ariel? Paulo Cézar Magalhães? Henrique Almeida? Brenner chegou direto no DM, Nico López AINDA não conseguiu jogar 180 minutos consecutivos. Não quero acreditar que o Inter não tenha feito força pra trazer outro lateral-esquerdo titular. A quem interessaria manter Géferson e Arthur, afinal (e aqui peço desculpas públicas ao Ceará, que mesmo beirando os 40 anos e jogando improvisado na esquerda é INFINITAMENTE SUPERIOR aos dois jogadores da posição no elenco. Desculpa, Ceará!) ?
No deserto de criatividade e gestão, apareceu Danilo Fernandes. (Ufa! Ao menos uma contratação incontestável.)
Mas a bagunça cobra o preço. O primeiro deles foi ver D’Alessandro indo pro River e sendo destaque na campanha da Libertadores, alçando estar entre os melhores da América mesmo considerado velho e ultrapassado por muitos.
Mais um Gauchão nas coxas. Uma Primeira Liga patética. Uma Florida Cup levando três gols apesar de marcar outros três.
Troca de técnico novamente. E novamente. E novamente. Apesar disso tudo e das dezessete derrotas, o Inter segue somente na boca do Z-4, ainda que o rebaixamento seja provável.
Apesar da direção, a torcida manteve a terceira melhor média de público no Brasileirão. Embora a bagunça e a inexplicável rusga com Seijas, o torcedor seguiu acreditando.
Na sua essência a torcida conseguiu separar apoio ao clube de apoio aos dirigentes. Apesar da SWAT, apesar dos repetidos favorecimentos aos que não jogam o mínimo. Apesar das confusões com contratos de TV, empréstimos e ações ajuizadas contra a instituição.
O clube do apesar ainda sobrevive. Respira por aparelhos. Talvez não siga nas dependências da Série A. Apesar do esforço e do choro do torcedor.
Fomos até muito longe apesar do que tentaram fazer com todas as forças pra que estivéssemos muito piores do que estamos hoje.
E apesar de todo o esforço da torcida e dos poucos jogadores que honram a camisa que vestem, o último jogo em casa nos guarda o triste encontro com Mano Menezes e Rafael Sóbis: ambos descartados por muitos anos e em algumas vezes tratados com desrespeito e soberba.
Qual seria o final mais justo dessa história? A derrota do apesar ou a vitória do óbvio? A falta de estudo e técnica ou a sobra de incompetência e arrogância?
Sonhar não custa nada e é de graça.
Sonhar não precisa renovar contrato nem corre o risco de ser processado.
O clube é do povo e não dos apesares.

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